quinta-feira, 17 de setembro de 2015

o que fizeram de nós

estava sentado sem equilíbrio -
como minha vida -
e pensei que os deuses seriam por
demais misericordiosos,
se me permitissem cair;

eu afundaria no chão como pedra,
me retorceria, tal qual um verme
vivendo da carne morta
e pútrida
de quem passasse por mim.
não é o que fazemos,
de todo modo?

nos alimentamos dos outros,
devoramos seus sonhos (o que
nos mandam)
e eles regurgitam os nossos.
nossos ossos fazem seus prédios,
suas ruas, seus sonhos
e agradecemos, muito obrigado.

não basta devorarem nossos corpos,
querem nossas almas
somos melhor digeridos assim,
eu suponho.

se eu não estivesse na merda
estaria muito irritado
mas sinto que nada disso
tem a ver comigo
e escrevo outro poema
que ninguém lerá
apenas
vermes.

sábado, 12 de setembro de 2015

fino como um pedaço de papel

às vezes eu me sinto fino como
um papel
apenas uma impressão
vazia ao toque
e meu corpo está na verdade
noutro lugar, noutro planeta e
tentando fazer contato
minha voz chega do outro lado
emudecida pela estática

suas mãos me atravessam: minha
forma fantasmagórica enfraquece
a cada minuto
não temos tempo, nunca tivemos
o tempo todo eu não estive aqui
e ao tentar ficar (só mais um pouco)
me fixei ao vazio

estou sozinho lá fora no nada e vejo
sua imagem sumir (indo
e voltando)
o tempo acabou e preciso voltar
a ponte entre nossos mundos
está se fechando
quero lhe dizer adeus, meus lábios
se movem
mas não produzem som
Deus, quero beijá-la

estou sendo repelido e puxado
de volta
então, você some
eu volto e
a ordem é restaurada
você, no seu mundo com bilhões
de pessoas
e eu, no meu mundo de um só
habitante:
você.