sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

a queda de um gigante

mesmo nos piores momentos
eu sentia dentro de mim algo inquebrável
como um prédio antigo
que enfrentou todo tipo de intempéries
e permaneceu em pé
quem imaginaria que um sorriso,
um beijo
faria tudo desmoronar
a grandeza construída ao longo dos anos,
a força de vontade implacável
agora jaz em ruínas
como era tolo seu arquiteto
e como é bela a sua queda
tanto quanto a causa dela
queria não ter ouvido "não" da vida tantas vezes
quem sabe assim eu aguentaria o seu

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

as lembranças me cegam

se eu cortasse os pulsos,
eu iria sangrar?
se eu me enforcasse,
eu iria sufocar?
se eu tirasse minha vida,
você iria ligar?
iria sangrar ou sufocar?
pois eu sangro e sufoco
as palavras que trocamos me cortam
e trancam a minha garganta
as lembranças me cegam,
pois não vejo outra coisa
isso é amor?
se é, não quero sangrar
não quero respirar
quero apenas descansar
e saber se você irá voltar

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

para sempre e nunca mais

à medida que o tempo se esvai por entre meus dedos
a vida se divide em dois pólos:
para sempre e nunca mais
tudo se torna urgente, como uma faca cortando a pele
uma ferida sempre exposta
e me torno mais duro e cruel
o desejo demasiado de viver dá o peso da eternidade
a cada decisão, a cada palavra
o agora se torna para sempre
e o depois nunca mais
quanto mais me agarro à vida, mais deixo de valorizar
o que ela tem de boa e pura
e a parede branca que poderia ser a tela de uma flor
receberá apenas outra camada de tinta
quando eu não estiver mais aqui

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

os dias simplesmente passam

o mais terrível é que seguimos em frente
nos desacostumamos do outro
e os dias simplesmente passam
um a um, na completa banalidade

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

algo a mais

estou louco
ou existe algo a mais no jeito que você me olha?
se sim, por que você só termina comigo?
se não, queria ser cego

o rastro da destruição

sempre pensei que a nossa relação
era como um furacão
surgia do nada, arrasava tudo pelo caminho
e nos deixava em meio aos destroços
sem ter a quem culpar além da própria natureza
mas agora vejo que minha vida é assim
e só me resta olhar incrédulo para
o rastro da destruição

estou cansado

cansado do horror dessa existência
de viver à margem da vida
sempre do lado de fora, olhando pra dentro
do tudo ou nada
de quem me quer pela metade
quando me dou por inteiro
do passado, do presente e do futuro
cancelem o dia de amanhã
fechem as portas, encerrem as cortinas
cancelem o amor
porque ela se foi
todos morrem ou me abandonam
mas nada me derruba

estou cansado desse corpo inerte
que teima em não me obedecer
da família que nunca fiz parte
e perdi
dos planos que não vingam
das relações que não dão liga
e das que estraguei
da vida que nunca me quis
cuspido do útero, largado ao nascer
sempre o último
mas ainda de pé

não ofereça a metade pra quem nunca teve nada
porque se não podemos ter tudo
nos deixe ao menos com o nada

sábado, 4 de maio de 2019

uma saída

sozinho no meu quarto
sob o longo açoite da morte
e procurando alguma saída desse buraco,
sem encontrar nenhuma
meu pensamento se volta para mulheres
uma em especial, a dançarina
me dou conta que minha salvação
sempre esteve entre um par de coxas
e um copo de rum

pode parecer banal, mas na escuridão
absoluta
entre o sexo e o nada
sob o peso do acaso da vida
a banalidade, a brincadeira e a música
podem ser a salvação
mas outros diriam que não se trata do banal,
mas sim de humanidade
e mesmo no buraco, sinto-me atraído por ela
ainda vivo
entre a nostalgia e um futuro incerto
esperando...

sexta-feira, 15 de março de 2019

à meia luz

hoje está sendo o dia mais
difícil de todos
tendo apenas na lembrança dela
(dançando à meia-luz
ao som de Doors, com as cores se
misturando como num caleidoscópio)
a única luz
uma luz que me mandou para as trevas
junto com toda a mágica daquele sorriso
meio tímido e inconsequente
com uma garrafa de cerveja na mão
o sorriso que me mandou das trevas
para o céu, e então para o inferno

se existe crime em ser capturado
pela mágica
(ser pego num tornado e jogado longe
no fim de seu rodopio, como numa
dança)
é ter olhos para vê-la
ao passo que ninguém mais a vê, ninguém
além de mim
de quem agora ela se esforça em se esconder
afinal, se existe alguém de quem fugir
é de quem tem olhos e não de quem nada vê
e eu vi, malditos sejam meus olhos,
eu vi!

onde estará ela, em que céu ou inferno?
ou em nenhum dos dois, mas nas trevas
onde ninguém pode vê-la
invisível, sem magia e vulgar
mas eu ainda a vejo na escuridão,
entre as chamas
dançando e me hipnotizando
um vislumbre de magia à meia luz
e me pergunto:
"então, minha pequena dançarina,
quem a vê
nas trevas que agora habita?"